A Terceira Via Jonathan me traiu com uma mulher que não sofreu por ele um terço do que eu sofri; uma mulher turista espairecendo na Europa. Jonathan é bastante tolo. Estou sem saber se me mudo para alguém mais ladino, se espero Jonathan crescer. Sem desgastar-me, sem gastar um tostão o moço oferece-me pensamentos diários com irresistível margem de perigos: posso ficar tísica, posso engordar, posso entender de física, posso jejuar produzindo sua imagem na hora mais quente do dia. Ismália me diz: 'Deus é um tijolo, está aqui no nariz do meu cachorro. Eu sou puro pecado'. E imediatamente come docinho de aletria com descansada certeza: 'Irei salvar-me porque Deus me ama'. Não tenho o peito de Ismália pra chegar perto de Deus. Por isso fico granindo e chego perto dos homens, cheiro a camisa de Pedro, o travo ingrato de Jonathan. Todos viram que minha boca secou quando disse muito prazer e desfaleci na cadeira. O amor me envergonha. Da geração da cachaça, do é ou não é, do ou casa ou vai pro convento, não posso ser gay e dizer: depende, vou ver, vou tratar do seu caso. Comigo é na pândega ou na santidade mais rigorosa. Eu não servia para ter nascido, para comer com boca, andar com pés e Ter dentro de mim oito metros de tripas desejando a filigrana de tua íris cuja cor não digo para não estragar tudo e novamente ficar coberta de ridículo. Sei agora, a duras penas, porque os santos levitam. Sem o corpo a alma de um homem não goza. Por isso Cristo sofreu no corpo a Sua paixão, adoro Cristo na Cruz. Meu desejo é atômico, minha unha é como meu sexo. Meu pé te deseja, meu nariz. Meu espírito – que é alento de Deus em mim – te deseja pra fazer não sei o quê com você. Não é beijar, nem abraçar, muito menos casar e ter um monte de filhos. - Francisco e o Serafim, abrasados -, e eu para todo o sempre olhando, olhando, olhando... Adélia Prado 
Botticelli
Escrito por lorena martins às 12h16
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