lorena poema
   
 
   
BRASIL, Mulher, French, English
Outro - lorena.martins@gmail.com
 

  Histórico

Outros sites
 caiowas
 caio carmacho
 chacal
 gaiteros
 cep 20.000
 arrudA
 ubuweb
 paula gastaud
 rodel-la
 carpinejar
 gerusa marques
 felipe jornada
 nave vazia
 porto poesia
 letícia verdi
 memórias do sub
 carol luisa
 joão paulo cuenca
 paulo scott
 bruna beber
 hilda magazine
 grace luzzi
 otávio afonso
 leandro de paula
 portal literal
 don't touch my moleskine
 leo lage
 ana guadalupe
 diego grando
 laura erber
 modo de usar & co
 rodrigo de lemos
 ivana arruda leite
 marcelino freire
 dna galerie
 andréa del fuego
 clarissa brittes
 pablo gonçalo
 joca reiners terron
 michel laub
 eduardo muylaert
 fernanda d'umbra
 bruno zeni
 lourenço mutarelli
 índigo
 estevão azevedo




 

 
 

gigantes.

"Às vezes entro pela noite, passo tempo sem fim acordando lembranças. Outras vezes não me ajeito com esta ocupação nova. Anteontem e ontem, por exemplo, foram dias perdidos. Tentei debalde canalizar para termo razoável esta prosa que se derrama como a chuva da serra, e o que me apareceu foi um grande desgosto. Desgosto e a vaga compreensão de muitas coisas que sinto. Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo perfeita saúde. O que estou é velho. Cinqüenta anos pelo S. Pedro. Cinqüenta anos perdidos, cinqüenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta cascaespessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada. Cinqüenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo?Sol, chuva, noites de insônia, cálculos, combinações, violências, perigos – e nem sequer me resta a ilusão de ter realizado obra proveitosa. O jardim, a horta, o pomar – abandonados; os marrecos de Pequim – mortos; o algodão, a mamona – secando. E as cercas dos vizinhos, inimigos ferozes, avançam.Está visto que, cessando esta crise, a propriedade se poderia reconstituir e voltar a ser o que era. A gente do eito se esfalfaria de sol a sol, alimentada com farinha de mandioca ebarbatanas de bacalhau; caminhões rodariam novamente, conduzindo mercadorias para a estrada de ferro; a fazenda se encheria outra vez de movimento e rumor.Mas para quê? Para quê? Não me dirão? Nesse movimento e nesse rumor haverá muito choro e haveria muita praga. As criancinhas, nos casebres úmidos e frios, inchariam roídas pela verminose. E Madalena não estaria aqui para mandar-lhes remédioe leite. Os homens e as mulheres seriam animais tristes. Coloquei-me acima da minha classe, creio que me elevei bastante. Como lhes disse, fui guia de cego, vendedor dedoce e trabalhador alugado. Estou convencido de que nenhum desses ofícios me daria os recursos intelectuais necessários para engendrar esta narrativa. Magra, de acordo, mas em momentos de otimismo suponho que há nela pedaços melhores que a literatura do Gondim. Sou, pois, superior a mestre Caetano e a outros semelhantes. Considerando, porém, que os enfeites do meu espírito se reduzem a farrapos de conhecimentos apanhados sem escolha e mal cosidos, devo confessar que a superioridade que me envaidece é bem mesquinha."

em São Bernardo (1934), de Graciliano Ramos

imagens: São Bernardo (1972), de Leon Hirszman. Othon Bastos i-n-f-e-r-n-a-l.

(o filme foi restaurado pela cinemateca brasileira e lançado em DVD, agora dá pra tê-lo em casa. sensacional.)

 



Escrito por lorena martins às 15h12
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

 I

amnésia
que por vezes
me acomete
          rasteira
uma morte temporária

 

da veia a faca

do meu

          veneno

gotas
pintam
partituras
no chão do banheiro.      

 

 



Escrito por lorena martins às 15h50
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

 

fudida
desgostosa da vida
chorar, chorar, chorar,
bebendo stella artois
 
 
maria gladys

com Joel Barcellos em  A Agonia (1976), de Júlio Bressane

 



Escrito por lorena martins às 12h13
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

 
MENDIGA VOZ

Y aún me atrevo a amar
el sonido de la luz en una hora muerta,
el color del tiempo en un muro abandonado.
 
En mi mirada lo he perdido todo.
Es tan lejos pedir. Tan cerca saber que no hay.

Alejandra Pizarnik

anna. cría cuervos, de carlos saura (1975)



Escrito por lorena martins às 12h23
[] [envie esta mensagem
] []


 

 
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]