loretta lux

hoje, enquanto o dia gritava seus lugares, lembrei de quando cresci.
cresci numa tarde dessas em que o vento parece saudoso suado e num deslize respira o rosto e devaneia.
cresci como quem atravessa o trigo arranca das árvores as folhas boas e de qualquer vertigem passageira o vestido.
cresci chorando sobre um gramado roxo, destemperado, que nos invernos cobria meus pés de terra e formigava.
cresci diante dos meus olhos épocas - um só corpo ensolarado enjoado.
eu ri quando cresci.
e despejei rumores, meias escuras e copos pela metade.
assim que a noite, não tão noite mas ríspida, viu meus braços se alongarem, os cabelos formarem cachos, eu desfiz.
tramei meu conto.
quando cresci, o cruzar de pernas que minha mãe ensinou, o tom de voz que me era permitido, a blusa de tricô que escondia os mamilos,
amargaram.
foi então que amanheci.
cobri o embaraço com pitangas à boca mergulhei onde era raso desejei os meus pudores e me vi quando era quase entristecer.
eu cresci e na moldura dos traços rastros, lastros eu te vi:
é um túnel.
Escrito por lorena poema às 19h48
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