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BRASIL, Mulher, French, English Outro - lorena.martins@gmail.com
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para bóris marin
e com a mesma gravidade com que as fotos perdem o foco com que o olhar de minha mãe condena e o fato de todos nós sorrirmos para o homem que descansa sua bengala e sua consciência naquelas tardes de verão ninguém ousaria invadir as casas.
Munch.
Escrito por lorena martins às 01h00
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Soneto (Dezembro de 1937) Aceitarás o amor como eu o encaro?... ... Azul bem leve, um nimbo, suavemente Guarda-te a imagem, como um anteparo Contra estes móveis de banal presente. Tudo o que há de melhor e de mais raro Vive em teu corpo nu de adolescente, A perna assim jogada e o braço, o claro Olhar preso no meu, perdidamente. Não exijas mais nada. Não desejo Também mais nada, só te olhar, enquanto A realidade é simples, e isto apenas. Que grandeza... a evasão total do pejo Que nasce das imperfeições. O encanto Que nasce das adorações serenas. Mário de Andrade (reencontrei o mário lá no blog da bruna. adorei e trouxe pra cá.)  A odalisca de Matisse.
Escrito por lorena martins às 14h23
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nem todos os domingos resistem aos gatos assustados guardados nos livros de cortázar. 
Escrito por lorena martins às 13h51
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picareta cultural 2009 ! 
meu xodó caio carmacho picareteando de novo. imperdível!
Escrito por lorena martins às 15h06
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A ETERNIDADE Arthur Rimbaud Tradução: Augusto de Campos De novo me invade. Quem? – A Eternidade. É o mar que se vai Como o sol que cai. Alma sentinela, Ensina-me o jogo Da noite que gela E do dia em fogo. Das lides humanas, Das palmas e vaias, Já te desenganas E no ar te espraias. De outra nenhuma, Brasas de cetim, O Dever se esfuma Sem dizer: enfim. Lá não há esperança E não há futuro. Ciência e paciência, Suplício seguro. De novo me invade. Quem? – A Eternidade. É o mar que se vai Com o sol que cai. L'ETERNITÉ
Elle est retrouvée. Quoi? – L'Eternité. C'est la mer allée Avec le soleil. Âme sentinelle, Murmurons l'aveu De la nuit si nulle Et du jour en feu. Des humains suffrages, Des communs élans Là tu te dégages Et voles selon. Puisque de vous seules, Braises de satin, Le Devoir s'exhale Sans qu'on dise: enfin. Là pas d'espérance, Nul orietur. Science avec patience, Le supplice est sûr. Elle est retrouvée. Quoi? – L'Eternité. C'est la mer allée Avec le soleil. [Mai 1872] 
Gustav Klimt : Love (1895)
Escrito por lorena martins às 17h16
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FOTOGRAFIA DO 11 DE SETEMBRO Pularam dos andares em chamas – Um, dois, alguns outros, Acima, abaixo. A fotografia os manteve em vida. E agora os preserva Acima da terra rumo à terra. Ainda estão completos, Cada um com seu próprio rosto E sangue bem guardado. Há tempo suficiente Para cabelos voarem, Para chaves e moedas Caírem dos bolsos. Permanecem nos domínios do ar, Na esfera de lugares que acabam de se abrir. Só posso fazer duas coisas por eles – Descrever este vôo E não acrescentar o último verso.
Wislawa Szymborska

Oscar Bony
Escrito por lorena martins às 18h09
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I Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca Austera. Toma-me AGORA, ANTES Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes Da morte, amor, da minha morte, toma-me Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute Em cadência minha escura agonia. Tempo do corpo este tempo, da fome Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento, Um sol de diamante alimentando o ventre, O leite da tua carne, a minha Fugidia. E sobre nós este tempo futuro urdindo Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo. Te descobres vivo sob um jogo novo. Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor, Antes do muro, antes da terra, devo Devo gritar a minha palavra, uma encantada Ilharga Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza. II Tateio. A fronte. O braço. O ombro. O fundo sortilégio da omoplata. Matéria-menina a tua fronte e eu Madurez, ausência nos teus claros Guardados. Ai, ai de mim. Enquanto caminhas Em lúcida altivez, eu já sou o passado. Esta fronte que é minha, prodigiosa De núpcias e caminho É tão diversa da tua fronte descuidada. Tateio. E a um só tempo vivo E vou morrendo. Entre terra e água Meu existir anfíbio. Passeia Sobre mim, amor, e colhe o que me resta: Noturno girassol. Rama secreta. (...) Hilda Hilst [Júbilo memória noviciado da paixão (1974)] 
Escrito por lorena martins às 16h20
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Até tu, São Paulo? A SÉRIE "Mad Men" ainda não estreou no Brasil. Lamento. Melhor é impossível. "Mad Men" é o retrato perfeito dos publicitários da Madison Avenue na Nova York sofisticada de 1960. Mas é mais do que isso. Um fresco sobre a grande transição americana: do aburguesamento dos "fifties" à contracultura dos "sixties". Do tédio à lixeira. Um pormenor, porém, não deixa de causar espanto entre os filistinos: o fumo. Em "Mad Men", toda a gente fuma com uma naturalidade que nos parece herética. Dentro dos edifícios, fora dos edifícios. Mães, pais. Patrões. Empregados. E médicos, é claro, a começar por um ginecologista que segura o cigarro com uma mão e faz o exame com a outra. Equilibrismo puro. Tanto fumo não deveria espantar. Pessoalmente, ainda recordo o tempo heroico em que o meu avô me levava ao cinema e fumava, em plena sala, do princípio ao fim. E, historicamente, "Mad Men" está na viragem. Em 1950, Richard Doll publicava o primeiro grande ensaio científico sobre a relação direta entre fumo (ativo) e doença. Só em 1970 chegou o mito do "fumo passivo". Digo "mito" e digo bem. Ainda está para aparecer o primeiro estudo cientificamente rigoroso capaz de mostrar uma relação sustentada entre "fumo passivo" e câncer. O que não significa que não existam estudos sobre essa hipótese. Christopher Booker, um especialista sobre as nossas histerias modernas, normalmente lembra dois. Os maiores e mais recentes. O primeiro foi realizado pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer, da Organização Mundial de Saúde. O segundo foi dirigido, durante 40 anos, por James Enstrom e Geoffrey Kabat para a Sociedade Americana de Câncer através da observação de 35 mil não fumantes que conviviam diariamente com fumantes. Resultados? Repito: um mito é um mito é um mito. Mas a ideologia é a ideologia é a ideologia. De vez em quando, afirmo que alguns traços nazistas sobreviveram a 1945. Sou insultado. Não respondo. Basta olhar em volta para perceber que algumas das nossas rotinas médicas mais básicas teriam agradado ao tio Adolfo e à sua busca de perfeição terrena. Exemplos? Certas formas de eugenia "respeitável", praticadas por milhões de pessoas quando recebem uma má ecografia. Ou a demonização absoluta que o fumante moderno conhece nos Estados Unidos. Na Europa. E agora, hélas, em São Paulo. Leio a legislação antifumo do Estado de São Paulo e reconheço a natureza totalitária dela, novamente dominada por uma ideia iníqua de perfeição física. Tudo começa pela elevação da mentira a dogma: o dogma de que "fumo passivo" é um perigo fatal para terceiros. O dogma não é apenas fantasioso; é também perigoso, porque estabelece de imediato uma divisão moral entre os agentes da corrupção (os fumantes) e as vítimas inocentes (os abstêmios). É só substituir "fumante" por "judeu"; e "abstêmio" por "ariano" para regressar a 1933. E regressar a 1933 é regressar a um mundo que desprezava a liberdade individual com especial ferocidade. A lei antifumo cumpre esse propósito. Proibir o fumo em lugares fechados, como bares ou restaurantes, é um ataque à propriedade privada e à liberdade de cada proprietário decidir que tipo de clientes deseja acolher no seu espaço. O mesmo raciocínio aplica-se aos clientes, impedidos de decidir livremente onde desejam ser acolhidos. Mas o melhor da lei vem no policiamento. Imitando as piores práticas das sociedades fechadas, a lei promove a delação como forma de convivência social. Por telefone ou pela internet, cada cidadão é convidado a ser um vigilante do vizinho, denunciando comportamentos "desviantes". Isso não é regressar a 1933. É, no mínimo, um regresso à Rússia de 1917. Se juntarmos ao quadro uma verdadeira "polícia sanitária" que ataca à paisana, é possível concluir que o espírito KGB emigrou para o Brasil. Finalmente, lembremos o essencial: os extremismos políticos só sobrevivem em sociedades cúmplices, ou pelo menos indiferentes aos extremistas. Será São Paulo esse tipo de sociedade? Parece. A última pesquisa Datafolha é sinistra: a esmagadora maioria dos paulistas (88%) aprova a lei antifumo. Só 10% se opõem a ela. Só 2% lhe são indiferentes. Mais irônico é olhar para os fumantes: depois de anos e anos de propaganda e desumanização, eles olham-se no espelho, sentem o clássico nojo de si próprios e até concordam com a lei (77%). Razão tinha Karl Kraus quando afirmava, na Viena de inícios do século, que o antissemitismo era tão normal que até os judeus o praticavam. Péssimo presságio. João Pereira Coutinho (Folha de S. Paulo, 18 de agosto de 2009) 
O Grito. Munch 1893.
Escrito por lorena martins às 15h43
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As freiras feias sem Deus
O QUE MOVE as pessoas, em meio a tantos problemas, a dedicar tamanha energia para reprimir o uso do tabaco? Resposta: o impulso fascista moderno. Proteger não fumantes do tabaco em espaços públicos fechados é justo. Minha objeção contra esta lei se dá em outros dois níveis: um mais prático e outro mais teórico. O prático diz respeito ao fato de ela não preservar alguns poucos bares e restaurantes livres para fumantes, sejam eles consumidores ou trabalhadores do setor. E por que não? Porque o que move o legislador, o fiscal e o dedo-duro é o gozo típico das almas mesquinhas e autoritárias. Uma espécie de freiras feias sem Deus. O teórico fala de uma tendência contemporânea, que é o triste fato de a democracia não ser, como pensávamos, imune à praga fascista. A tendência da democracia à lógica tirânica da saúde já havia sido apontada por Tocqueville (século 19). Dizia o conde francês que a vocação puritana da democracia para a intolerância para com hábitos "inúteis" a levaria a odiar coisas como o álcool e o tabaco, entre outras possibilidades. Odiaremos comedores de carne? Proprietários de dois carros? Que tal proibir o tabaco em casa em nome do pulmão do vizinho? Ou uma campanha escolar para estimular as crianças a denunciar pais fumantes? Toda forma de fascismo caminhou para a ampliação do controle da vida mínima. As freiras feias sem Deus gozariam com a ideia de crianças tão críticas dos maus hábitos. A associação do discurso científico ao constrangimento do comportamento moral, via máquina repressiva do Estado, é típica do fascismo. Se comer carne aumentar os custos do Ministério da Saúde, fecharemos as churrascarias? Crianças diagnosticadas cegas ainda no útero significariam uma economia significativa para a sociedade. Vamos abortá-las sistematicamente? O eugenista, o adorador da vida cientificamente perfeita, não se acha autoritário, mas, sim, redentor da espécie humana. E não me venha dizer que no "Primeiro Mundo" todo o mundo faz isso, porque não sou um desses idiotas colonizados que pensam que o "Primeiro Mundo" seja modelo de tudo. Conheço o "Primeiro Mundo" o suficiente para não crer em bobagens desse tipo. O que essas freiras feias sem Deus não entendem é que o que humaniza o ser humano é um equilíbrio sutil entre vícios e virtudes. E, quando estamos diante de neopuritanos, de santos sem Deus, os vícios é que nos salvam. Não quero viver num mundo sem vícios. E quero vivê-lo tomando vinho, vendo o rosto de uma mulher linda e bêbada em meio à fumaça num bistrô. Luiz Felipe Pondé é colunista da Ilustrada 
Escrito por lorena martins às 17h53
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Poema
Ouvi falar de um homem que dizia palavras com tal beleza que bastava ele pronunciar os nomes e as mulheres se entregavam a ele.
Se estou mudo diante de seu corpo enquanto o silêncio floresce como tumores em nossos lábios é porque ouço um homem subir as escadas e limpar a garganta atrás de nossa porta.
Leonard Cohen 
Exposição sobre Serge Gainsbourg agora no SESC Paulista. Delícia.
Escrito por lorena martins às 22h40
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A Terceira Via Jonathan me traiu com uma mulher que não sofreu por ele um terço do que eu sofri; uma mulher turista espairecendo na Europa. Jonathan é bastante tolo. Estou sem saber se me mudo para alguém mais ladino, se espero Jonathan crescer. Sem desgastar-me, sem gastar um tostão o moço oferece-me pensamentos diários com irresistível margem de perigos: posso ficar tísica, posso engordar, posso entender de física, posso jejuar produzindo sua imagem na hora mais quente do dia. Ismália me diz: 'Deus é um tijolo, está aqui no nariz do meu cachorro. Eu sou puro pecado'. E imediatamente come docinho de aletria com descansada certeza: 'Irei salvar-me porque Deus me ama'. Não tenho o peito de Ismália pra chegar perto de Deus. Por isso fico granindo e chego perto dos homens, cheiro a camisa de Pedro, o travo ingrato de Jonathan. Todos viram que minha boca secou quando disse muito prazer e desfaleci na cadeira. O amor me envergonha. Da geração da cachaça, do é ou não é, do ou casa ou vai pro convento, não posso ser gay e dizer: depende, vou ver, vou tratar do seu caso. Comigo é na pândega ou na santidade mais rigorosa. Eu não servia para ter nascido, para comer com boca, andar com pés e Ter dentro de mim oito metros de tripas desejando a filigrana de tua íris cuja cor não digo para não estragar tudo e novamente ficar coberta de ridículo. Sei agora, a duras penas, porque os santos levitam. Sem o corpo a alma de um homem não goza. Por isso Cristo sofreu no corpo a Sua paixão, adoro Cristo na Cruz. Meu desejo é atômico, minha unha é como meu sexo. Meu pé te deseja, meu nariz. Meu espírito – que é alento de Deus em mim – te deseja pra fazer não sei o quê com você. Não é beijar, nem abraçar, muito menos casar e ter um monte de filhos. - Francisco e o Serafim, abrasados -, e eu para todo o sempre olhando, olhando, olhando... Adélia Prado 
Botticelli
Escrito por lorena martins às 12h16
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Tenho o nome de uma flor Tenho o nome de uma flor quando me chamas. Quando me tocas, nem eu sei se sou água, rapariga, ou algum pomar que atravessei. Eugénio de Andrade 


Helena Almeida.
Escrito por lorena martins às 13h13
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Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre os cotovelos. batem folhas da luz um pouco abaixo do silêncio. Quero saber o nome de quem morre: o vestido de ar ardendo, os pés e movimento no meio do meu coração. O nome: madeira que arqueja, seca desde o fundo do seu tempo vegetal coarctado. E, ao abrir-se a toalha viva, o nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus pulmões de algodão queimando. Uma serpente de ouro abraça os quadris negros e molhados. E a água que se debruça olha a loucura com seu nome: indecifrável cego
Herberto Helder 
Escrito por lorena martins às 15h13
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Solamente
ya comprendo la verdad
estalla en mis deseos
y mis desdichas en mis desencuentros en mis desequilibrios en mis delirios
ya comprendo la verdad
ahora a buscar la vida
Alejandra Pizarnik 
Manuel Alvarez Bravo
Escrito por lorena martins às 02h11
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gigantes. 
"Às vezes entro pela noite, passo tempo sem fim acordando lembranças. Outras vezes não me ajeito com esta ocupação nova. Anteontem e ontem, por exemplo, foram dias perdidos. Tentei debalde canalizar para termo razoável esta prosa que se derrama como a chuva da serra, e o que me apareceu foi um grande desgosto. Desgosto e a vaga compreensão de muitas coisas que sinto. Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo perfeita saúde. O que estou é velho. Cinqüenta anos pelo S. Pedro. Cinqüenta anos perdidos, cinqüenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta cascaespessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada. Cinqüenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo?Sol, chuva, noites de insônia, cálculos, combinações, violências, perigos – e nem sequer me resta a ilusão de ter realizado obra proveitosa. O jardim, a horta, o pomar – abandonados; os marrecos de Pequim – mortos; o algodão, a mamona – secando. E as cercas dos vizinhos, inimigos ferozes, avançam.Está visto que, cessando esta crise, a propriedade se poderia reconstituir e voltar a ser o que era. A gente do eito se esfalfaria de sol a sol, alimentada com farinha de mandioca ebarbatanas de bacalhau; caminhões rodariam novamente, conduzindo mercadorias para a estrada de ferro; a fazenda se encheria outra vez de movimento e rumor.Mas para quê? Para quê? Não me dirão? Nesse movimento e nesse rumor haverá muito choro e haveria muita praga. As criancinhas, nos casebres úmidos e frios, inchariam roídas pela verminose. E Madalena não estaria aqui para mandar-lhes remédioe leite. Os homens e as mulheres seriam animais tristes. Coloquei-me acima da minha classe, creio que me elevei bastante. Como lhes disse, fui guia de cego, vendedor dedoce e trabalhador alugado. Estou convencido de que nenhum desses ofícios me daria os recursos intelectuais necessários para engendrar esta narrativa. Magra, de acordo, mas em momentos de otimismo suponho que há nela pedaços melhores que a literatura do Gondim. Sou, pois, superior a mestre Caetano e a outros semelhantes. Considerando, porém, que os enfeites do meu espírito se reduzem a farrapos de conhecimentos apanhados sem escolha e mal cosidos, devo confessar que a superioridade que me envaidece é bem mesquinha." em São Bernardo (1934), de Graciliano Ramos 
imagens: São Bernardo (1972), de Leon Hirszman. Othon Bastos i-n-f-e-r-n-a-l. (o filme foi restaurado pela cinemateca brasileira e lançado em DVD, agora dá pra tê-lo em casa. sensacional.)
Escrito por lorena martins às 15h12
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I amnésia que por vezes me acomete rasteira uma morte temporária da veia a faca do meu veneno gotas pintam partituras no chão do banheiro.
Escrito por lorena martins às 15h50
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fudida desgostosa da vida chorar, chorar, chorar, bebendo stella artois maria gladys 
com Joel Barcellos em A Agonia (1976), de Júlio Bressane
Escrito por lorena martins às 12h13
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MENDIGA VOZ Y aún me atrevo a amar el sonido de la luz en una hora muerta, el color del tiempo en un muro abandonado. En mi mirada lo he perdido todo. Es tan lejos pedir. Tan cerca saber que no hay. Alejandra Pizarnik 
anna. cría cuervos, de carlos saura (1975)
Escrito por lorena martins às 12h23
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pela manhã eu vi
à espreita no sofá
a serpente.

betty blue (1986)
Escrito por lorena martins às 10h17
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aflitos os pássaros
parapeitos
e fins de noite
meditam sob o céu
cobre
o manto de chuva
que tímido atrás
da cortina
você não vê.
Escrito por lorena martins às 14h14
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sombras rosas sombras
Sob um céu estranho sombras rosas sombras numa terra estranha entre rosas e sombras numa água estranha a minha sombra
Ingeborg Bachmann Tradução João Barrento
liv ullman
max von sydow
em a hora do lobo (1968), de ingmar bergman
Escrito por lorena martins às 23h16
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Tempo do coração, vale os sonhadores no lugar dos ponteiros da meia-noite
alguns falam no silêncio, alguns se calam alguns seguiram seu caminho banidos e perdidos estavam em casa
vós, catedrais
vós, catedrais não vistas vós, rios inaudíveis vós, relógios intrínsecos em nós.
Paul Celan

Berlin Alexanderplatz (1980), de Rainer Werner Fassbinder.
Escrito por lorena martins às 12h25
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Gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever. No entanto ele está cá dentro inquieto, vivo. Ele está cá dentro e não quer sair. Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira.
Carlos Drummond de Andrade
Escrito por lorena martins às 12h27
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rasif ° mar que arrebenta

lançamento do querido marcelino nesta quinta, 19h, lá n'O b_arco. um luxo.
*clique no convite e imagine a lindeza que está a edição.
Escrito por lorena martins às 16h58
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não autores em são paulo

estarei lá prestigiando meu querido amigo diego grando, ex-colega de mosquito, e os seus.
Escrito por lorena martins às 01h45
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a questão humana (nicolas klotz, 2007)
é o mais importante filme em cartaz - e talvez do ano, até então.
matei a saudade de um certo cinema francês, daqueles filmes que passam dias, anos conversando com a gente. sem falar do adorado mathieu amalric, que está infernal.

mathieu também está em cartaz em o escafandro e a borboleta, que é beeem bacana (não se assuste com o trailer).
*
só o cine para salvar-me da douleur.
Escrito por lorena martins às 13h23
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intermináveis fugas
uma mulher
em mim mergulha

Bianca Regl : Filaree Hights (2007 - oil on canvas)
( "Meu sonho fica perto do seu" )
Escrito por lorena martins às 16h18
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chambre avec vue, de henri salvador (2000)
C'est un ailleurs C'est une chambre avec vue C'est un ailleurs Un lieu où j'ai vécu Quelques bonheurs Passés inaperçus Quelques douceurs Avec une inconnue Que j'ai connue
C'est le grand air C'est une chambre avec vue C'est le grand air Juste au coin de la rue Une vie entière De la fin au début Douce et amère L'ai-je vraiment vécue ? Je ne sais plus Je ne sais plus*


clemens krauss: Chromosomes, aus der Serie 'Das Körperkörper-Problem', 2007
até 03 de agosto no MAM do rio. SENSACIONAL.
(vai lá: DNA-Galerie.)
*prometo postar a tradução nos próximos dias. antes preciso desencaixotar os livros, se alguém tiver alguma estante de livros para doar ou vender baratinho (em SP), minha profunda gratidão <3 : lorenapoema@hotmail.com
Escrito por lorena martins às 16h01
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flip 2008
~ É O MELHOR QUE NÓS TEMOS ~
primeira picareta cultural de paraty
ave embromadores! 'é o melhor que nós temos' não deriva dos elefantes, não compactuou com nenhum deus da chuva e da morte, não trepou em belvederes e sequer furou filas sem fim de demônios descontentes ao acaso - na dúvida, culpem o sindicato. cambalhotas, deu, dá (muitas). fogo-de-artifício, amorzinho de luxo, marcianos de segunda mão. plástico plágio estro, eramosditos. preciso te dizer, preciso te dizer. uquê, que ser? amálgama popular? vados n’ wasos? zangarêio literárius? nenhum trágico na gaveta, quem dirá à deriva. lôras-morenas-lorenas. poemários maltratados. cordeiros/lobos, todos enfim juntos: tocando a bandinha, exorcizando a bandalhêra. cristão nenhum desta vez. não é o fim do mundo, não ainda. na próxima quem sabes. noutra vida, noutras teses, noutra tez. pelo bem e pelo mal: é o melhor que nós temos, é o melhorquenóstem, é o melhó.
traduzindo: primeira picareta cultural de paraty = escribas consagrados, grandes jovens autores, música ao vivo.
nomes nós já temos. vejamos se todos aparecem até a hora do recreio.
5 de julho - sábado; a partir das 19 horas no antigo toronto (atual bar e restaurante do alemão), no centro histórico de paraty.
programação: http://www.melhorquenostemos.blogspot.com/
Escrito por lorena martins às 17h09
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le déménagement
caros e queridos
apaguei por acidente o poema postado logo abaixo, daí o porquê do seu súbito movimento nas entranhas do blog.
andei e ando ausente, mas eu ainda sou uma fruta gogóia.

Escrito por lorena martins às 21h56
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eu te dôo a minha apatia jogo os cinzeiros sobre a mesa até os estilhaços vidro, baganas e meus pés em falso
eu desvio meu pensamento pisando em cacos mofando a toalha na cabeça cinzenta afogando banhos frios.
eu me ofereço pálida meu amor atordoado que se queima à boca do bule retinta.
eu me concedo ansiosa guardando dos livros os trechos que me podam rasgando os poemas pela metade permanecendo chuva turva e tua.

egon schiele "nu assis" (1910)
Escrito por lorena martins às 21h38
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desamor
é a dor de um morto
as fotos guardadas
na caixa de sapato
é da cor do grito
e me ventila
sempre que insone desabo
pela casa
vazia
é uma ressaca
que quando me acorda
chora
seu nó na garganta
é um ensaio
que tardando para ir embora
adormece seu sonho
insalubre
é um soneto arredio
um sol que se põe
sobre mim
é um soco,
um escândalo
sempre que desperto
e me vejo
partir.
Der Kuss, de Gustav Klimt (1907-08)
Escrito por lorena martins às 00h51
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disfarce
sorri no canto
da foto
a mão no bolso
da macieira
esboça um bigode
de barbeiro
um penteado
de banho-tomado
à sombra
a camisa alinhada
à matéria
embargada
ensaiada
sorri
um silêncio
de ponte
à esquerda ao lado
da moça de chapéu
o dia nublado
na boca num beco
piscava
julien pacaud
Escrito por lorena martins às 00h32
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homenagem ao querido poeta otávio afonso,
com quem tive o prazer de conviver nestes meus 8 meses de ministério da cultura. reproduzo aqui o último post do seu blog, chão do adeus:
Lição
por todas as coisas aprendidas inutilmente
por todas as coisas guardadas no improviso da dor
agora recolho meu próprio vulto no que permite a solidão neste duro chão humano
mas me falta o suor do teu corpo e a direção dos ventos
Escrito por lorena martins às 13h52
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band à part, de j-l godard, 1963
eu curo meu silêncio
com gaze, museus
mercúrio
a noite em claro
a semana chove
ferida
ninguém mais suporta
molhar os pés
eu peço um duplo
cafeína, vodka,
versos
fotos de abajur
à meia-noite
suspira
billie na calçada
a heaven just for two
é uma saga
Escrito por lorena martins às 18h55
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Poema nº 03: La Tristesse

L'absinthe, de Edgar Degas (1876)
Escrito por lorena martins às 22h54
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(imãs de geladeira chez j & c)
o domingo
que entre mim
preguiça
acorda
essa gaveta
de insônia
fanny e alexander, de rei bergman
Escrito por lorena martins às 02h00
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planetárias
as pupilas delatam
o céu
i'm not there, de todd haynes (2007)
Escrito por lorena martins às 18h10
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a tempestade
no último degrau
(suspiro)
pro inferno carregue
teus sapatos vermelhos
teu suspeito convite
para dançar
respire
no the end
tudo o que eu digo é
lamento
não há como chover mais
neste dia embriagado
de solidão
sigo atropelável
pedindo suco de laranja
às lágrimas
pro vendedor de guarda-chuvas.
robert doisneau
Escrito por lorena martins às 15h12
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to be a man ray
deixava a madeira molhar
até tomar cores
de mágoa, de terra
envelhecendo
como o braço da cadeira
kiki dançava
talhada à mão
imóvel.
man ray "noire et blanche", 1926
Escrito por lorena martins às 23h37
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