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Poema

Ouvi falar de um homem
que dizia palavras com tal beleza
que bastava ele pronunciar os nomes
e as mulheres se entregavam a ele.

Se estou mudo diante de seu corpo
enquanto o silêncio floresce como tumores em nossos lábios
é porque ouço um homem subir as escadas
e limpar a garganta atrás de nossa porta.

Leonard Cohen

Exposição sobre Serge Gainsbourg agora no SESC Paulista. Delícia.



Escrito por lorena martins às 22h40
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A Terceira Via

Jonathan me traiu com uma mulher
que não sofreu por ele
um terço do que eu sofri;
uma mulher turista espairecendo na Europa.
Jonathan é bastante tolo.
Estou sem saber se me mudo
para alguém mais ladino,
se espero Jonathan crescer.
Sem desgastar-me, sem gastar um tostão
o moço oferece-me pensamentos diários
com irresistível margem de perigos:
posso ficar tísica,
posso engordar,
posso entender de física,
posso jejuar
produzindo sua imagem na hora mais quente do dia.
Ismália me diz: 'Deus é um tijolo,
está aqui no nariz do meu cachorro.
Eu sou puro pecado'.
E imediatamente come docinho de aletria
com descansada certeza:
'Irei salvar-me porque Deus me ama'.
Não tenho o peito de Ismália
pra chegar perto de Deus.
Por isso fico granindo
e chego perto dos homens,
cheiro a camisa de Pedro,
o travo ingrato de Jonathan.
Todos viram que minha boca secou
quando disse muito prazer e desfaleci na cadeira.
O amor me envergonha.
Da geração da cachaça,
do é ou não é,
do ou casa ou vai pro convento,
não posso ser gay e dizer: depende,
vou ver, vou tratar do seu caso.
Comigo é na pândega
ou na santidade mais rigorosa.
Eu não servia para ter nascido,
para comer com boca, andar com pés
e Ter dentro de mim oito metros de tripas
desejando a filigrana de tua íris
cuja cor não digo para não estragar tudo
e novamente ficar coberta de ridículo.
Sei agora, a duras penas,
porque os santos levitam.
Sem o corpo a alma de um homem não goza.
Por isso Cristo sofreu no corpo a Sua paixão,
adoro Cristo na Cruz.
Meu desejo é atômico,
minha unha é como meu sexo.
Meu pé te deseja, meu nariz.
Meu espírito – que é alento de Deus em mim – te deseja
pra fazer não sei o quê com você.
Não é beijar, nem abraçar, muito menos casar
e ter um monte de filhos.
-   Francisco e o Serafim, abrasados -,
e eu para todo o sempre
olhando, olhando, olhando... 

Adélia Prado

Botticelli



Escrito por lorena martins às 12h16
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Tenho o nome de uma flor

Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei.
 
Eugénio de Andrade

Helena Almeida.



Escrito por lorena martins às 13h13
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Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre

os cotovelos. batem folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés e movimento no meio
do meu coração. O nome: madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça
olha a loucura com seu nome: indecifrável cego

Herberto Helder



Escrito por lorena martins às 15h13
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Franciszek Starowieyski.



Escrito por lorena martins às 16h08
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Solamente

ya comprendo la verdad

estalla en mis deseos

y mis desdichas
en mis desencuentros
en mis desequilibrios
en mis delirios

ya comprendo la verdad

ahora
a buscar la vida

Alejandra Pizarnik

Manuel Alvarez Bravo



Escrito por lorena martins às 02h11
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gigantes.

"Às vezes entro pela noite, passo tempo sem fim acordando lembranças. Outras vezes não me ajeito com esta ocupação nova. Anteontem e ontem, por exemplo, foram dias perdidos. Tentei debalde canalizar para termo razoável esta prosa que se derrama como a chuva da serra, e o que me apareceu foi um grande desgosto. Desgosto e a vaga compreensão de muitas coisas que sinto. Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo perfeita saúde. O que estou é velho. Cinqüenta anos pelo S. Pedro. Cinqüenta anos perdidos, cinqüenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta cascaespessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada. Cinqüenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo?Sol, chuva, noites de insônia, cálculos, combinações, violências, perigos – e nem sequer me resta a ilusão de ter realizado obra proveitosa. O jardim, a horta, o pomar – abandonados; os marrecos de Pequim – mortos; o algodão, a mamona – secando. E as cercas dos vizinhos, inimigos ferozes, avançam.Está visto que, cessando esta crise, a propriedade se poderia reconstituir e voltar a ser o que era. A gente do eito se esfalfaria de sol a sol, alimentada com farinha de mandioca ebarbatanas de bacalhau; caminhões rodariam novamente, conduzindo mercadorias para a estrada de ferro; a fazenda se encheria outra vez de movimento e rumor.Mas para quê? Para quê? Não me dirão? Nesse movimento e nesse rumor haverá muito choro e haveria muita praga. As criancinhas, nos casebres úmidos e frios, inchariam roídas pela verminose. E Madalena não estaria aqui para mandar-lhes remédioe leite. Os homens e as mulheres seriam animais tristes. Coloquei-me acima da minha classe, creio que me elevei bastante. Como lhes disse, fui guia de cego, vendedor dedoce e trabalhador alugado. Estou convencido de que nenhum desses ofícios me daria os recursos intelectuais necessários para engendrar esta narrativa. Magra, de acordo, mas em momentos de otimismo suponho que há nela pedaços melhores que a literatura do Gondim. Sou, pois, superior a mestre Caetano e a outros semelhantes. Considerando, porém, que os enfeites do meu espírito se reduzem a farrapos de conhecimentos apanhados sem escolha e mal cosidos, devo confessar que a superioridade que me envaidece é bem mesquinha."

em São Bernardo (1934), de Graciliano Ramos

imagens: São Bernardo (1972), de Leon Hirszman. Othon Bastos i-n-f-e-r-n-a-l.

(o filme foi restaurado pela cinemateca brasileira e lançado em DVD, agora dá pra tê-lo em casa. sensacional.)

 



Escrito por lorena martins às 15h12
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 I

amnésia
que por vezes
me acomete
          rasteira
uma morte temporária

 

da veia a faca

do meu

          veneno

gotas
pintam
partituras
no chão do banheiro.      

 

 



Escrito por lorena martins às 15h50
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fudida
desgostosa da vida
chorar, chorar, chorar,
bebendo stella artois
 
 
maria gladys

com Joel Barcellos em  A Agonia (1976), de Júlio Bressane

 



Escrito por lorena martins às 12h13
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MENDIGA VOZ

Y aún me atrevo a amar
el sonido de la luz en una hora muerta,
el color del tiempo en un muro abandonado.
 
En mi mirada lo he perdido todo.
Es tan lejos pedir. Tan cerca saber que no hay.

Alejandra Pizarnik

anna. cría cuervos, de carlos saura (1975)



Escrito por lorena martins às 12h23
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pela manhã eu vi

à espreita no sofá

a serpente.

betty blue (1986)



Escrito por lorena martins às 10h17
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aflitos os pássaros
parapeitos
e fins de noite
meditam sob o céu
cobre
o manto de chuva
que tímido atrás
da cortina
você não vê.



Escrito por lorena martins às 14h14
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sombras rosas sombras

Sob um céu estranho
sombras rosas
sombras
numa terra estranha
entre rosas e sombras
numa água estranha
a minha sombra

Ingeborg Bachmann
Tradução João Barrento
 
liv ullman
 
max von sydow
 
em a hora do lobo (1968), de ingmar bergman


Escrito por lorena martins às 23h16
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Tempo do coração, vale
os sonhadores no lugar
dos ponteiros da meia-noite

alguns falam no silêncio, alguns se calam
alguns seguiram seu caminho
banidos e perdidos
estavam em casa

vós, catedrais

vós, catedrais não vistas
vós, rios inaudíveis
vós, relógios intrínsecos em nós.

Paul Celan

Berlin Alexanderplatz (1980), de Rainer Werner Fassbinder.

 



Escrito por lorena martins às 12h25
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Escrito por lorena martins às 17h25
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Escrito por lorena martins às 10h39
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    Poesia

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Carlos Drummond de Andrade

 



Escrito por lorena martins às 12h27
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em cartaz!!!

 



Escrito por lorena martins às 17h46
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rasif ° mar que arrebenta

lançamento do querido marcelino nesta quinta, 19h, lá n'O b_arco. um luxo.

*clique no convite e imagine a lindeza que está a edição.

 

 



Escrito por lorena martins às 16h58
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não autores em são paulo

estarei lá prestigiando meu querido amigo diego grando, ex-colega de mosquito, e os seus.

 



Escrito por lorena martins às 01h45
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a questão humana (nicolas klotz, 2007)

é o mais importante filme em cartaz - e talvez do ano, até então.

matei a saudade de um certo cinema francês, daqueles filmes que passam dias, anos conversando com a gente. sem falar do adorado mathieu amalric, que está infernal.

mathieu também está em cartaz em o escafandro e a borboleta, que é beeem bacana (não se assuste com o trailer).

*

só o cine para salvar-me da douleur.



Escrito por lorena martins às 13h23
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intermináveis fugas

uma mulher

em mim mergulha

 

Bianca Regl : Filaree Hights (2007 - oil on canvas)

( "Meu sonho fica perto do seu" )

 



Escrito por lorena martins às 16h18
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chambre avec vue, de henri salvador (2000)

C'est un ailleurs
C'est une chambre avec vue
C'est un ailleurs
Un lieu où j'ai vécu
Quelques bonheurs
Passés inaperçus
Quelques douceurs
Avec une inconnue
Que j'ai connue

C'est le grand air
C'est une chambre avec vue
C'est le grand air
Juste au coin de la rue
Une vie entière
De la fin au début
Douce et amère
L'ai-je vraiment vécue ?
Je ne sais plus
Je ne sais plus*

clemens krauss: Chromosomes, aus der Serie 'Das Körperkörper-Problem', 2007 

até 03 de agosto no MAM do rio. SENSACIONAL.

(vai lá: DNA-Galerie.) 
 

*prometo postar a tradução nos próximos dias. antes preciso desencaixotar os livros, se alguém tiver alguma estante de livros para doar ou vender baratinho (em SP), minha profunda gratidão <3 : lorenapoema@hotmail.com



Escrito por lorena martins às 16h01
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flip 2008

~ É O MELHOR QUE NÓS TEMOS ~

                     primeira picareta cultural de paraty

convite nas coxas, por caio carmacho 

ave embromadores! 'é o melhor que nós temos' não deriva dos elefantes, não compactuou com nenhum deus da chuva e da morte, não trepou em belvederes e sequer furou filas sem fim de demônios descontentes ao acaso - na dúvida, culpem o sindicato. cambalhotas, deu, dá (muitas). fogo-de-artifício, amorzinho de luxo, marcianos de segunda mão. plástico plágio estro, eramosditos. preciso te dizer, preciso te dizer. uquê, que ser? amálgama popular? vados n’ wasos? zangarêio literárius? nenhum trágico na gaveta, quem dirá à deriva. lôras-morenas-lorenas. poemários maltratados. cordeiros/lobos, todos enfim juntos: tocando a bandinha, exorcizando a bandalhêra. cristão nenhum desta vez. não é o fim do mundo, não ainda. na próxima quem sabes. noutra vida, noutras teses, noutra tez. pelo bem e pelo mal: é o melhor que nós temos, é o melhorquenóstem, é o melhó.

traduzindo: primeira picareta cultural de paraty = escribas consagrados, grandes jovens autores, música ao vivo.

nomes nós já temos. vejamos se todos aparecem até a hora do recreio.

5 de julho - sábado; a partir das 19 horas no antigo toronto (atual bar e restaurante do alemão), no centro histórico de paraty.

programação: http://www.melhorquenostemos.blogspot.com/



Escrito por lorena martins às 17h09
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enjoy division

tempos de vaca gorda: em cartaz "control", de anton corbijn,    

e "joy division", de grant gree. 

imperdíveis.

 



Escrito por lorena martins às 16h07
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le déménagement

caros e queridos

apaguei por acidente o poema postado logo abaixo, daí o porquê do seu súbito movimento nas entranhas do blog.

andei e ando ausente, mas eu ainda sou uma fruta gogóia.

 



Escrito por lorena martins às 21h56
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eu te dôo a minha apatia
jogo os cinzeiros sobre a mesa
até os estilhaços
vidro, baganas
e meus pés em falso

eu desvio meu pensamento
pisando em cacos
mofando a toalha na cabeça
cinzenta
afogando banhos frios.

eu me ofereço pálida
meu amor atordoado
que se queima à
                  boca
                  do bule
retinta.

eu me concedo ansiosa
guardando dos
livros os trechos que
                 me podam
rasgando os poemas pela metade
permanecendo
            chuva
                   turva
                         e tua.

egon schiele "nu assis" (1910)



Escrito por lorena martins às 21h38
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desamor
 
é a dor de um morto
as fotos guardadas
na caixa de sapato
 
é da cor do grito
e me ventila
sempre que insone desabo
pela casa
vazia
 
é uma ressaca
que quando me acorda
chora
seu nó na garganta
 
é um ensaio
que tardando para ir embora
adormece seu sonho
insalubre
 
é um soneto arredio
um sol que se põe
sobre mim
 
é um soco,
                um escândalo
sempre que desperto
e me vejo
 
partir.
 
Der Kuss, de Gustav Klimt (1907-08)


Escrito por lorena martins às 00h51
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disfarce
 
sorri no canto
da foto
a mão no bolso
da macieira
 
esboça um bigode
de barbeiro
um penteado
de banho-tomado
à sombra
a camisa alinhada
à matéria
             embargada
             ensaiada             
             sorri
um silêncio
de ponte
 
à esquerda ao lado
da moça de chapéu
o dia nublado
na boca num beco 
 
piscava
 
 
julien pacaud


Escrito por lorena martins às 00h32
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homenagem ao querido poeta otávio afonso,

com quem tive o prazer de conviver nestes meus 8 meses de ministério da cultura. reproduzo aqui o último post do seu blog, chão do adeus:

Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008

Lição

por todas as coisas aprendidas
inutilmente

por todas as coisas
guardadas no improviso da dor

agora recolho meu próprio vulto
no que permite a solidão
neste duro chão humano

mas me falta o suor
do teu corpo
e a direção dos ventos



Escrito por lorena martins às 13h52
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                                                 band à part, de j-l godard, 1963
 
 
eu curo meu silêncio
com gaze, museus
mercúrio
a noite em claro
 
a semana chove
ferida
ninguém mais suporta
molhar os pés
 
eu peço um duplo
cafeína, vodka,
versos
fotos de abajur
 
à meia-noite
suspira
billie na calçada
a heaven just for two
 
é uma saga
 


Escrito por lorena martins às 18h55
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Poema nº 05 : Silêncio

The Brown Bunny, de Vincent Gallo (2003)

 

Le Viol, de Edgar Degas (1868/69)

 



Escrito por lorena martins às 16h37
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Poema nº 04: Kieslowski, toujours.

bleu (1993)

blanc (1994)

rouge (1994)



Escrito por lorena martins às 01h20
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Poema nº 03: La Tristesse

L'absinthe, de Edgar Degas (1876)

 

 



Escrito por lorena martins às 22h54
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Poema nº02 : Marilyn Monroe

de jean-pierre yvaral : marilyn numérisée (1993), obra que está na maravilhosa exposição "os cinéticos" , em são paulo (ao vivo este quadro é sensacional).

e

fotografias de bert stern (1962), que estão na galeria estação, também em são paulo.



Escrito por lorena martins às 16h42
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Poema nº01: A Casa de Alice

de Chico Teixeira, Brasil, 2007. Foto Lucas Barreto

                                                             http://www.acasadealice.com.br/



Escrito por lorena martins às 13h37
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(imãs de geladeira chez j & c)    

o domingo
que entre mim 
           preguiça
acorda
essa gaveta
          de insônia
 
fanny e alexander, de rei bergman


Escrito por lorena martins às 02h00
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planetárias
as pupilas delatam
o céu
 
 
 
i'm not there, de todd haynes (2007)


Escrito por lorena martins às 18h10
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a tempestade
 
no último degrau
(suspiro)
pro inferno carregue
teus sapatos vermelhos
teu suspeito convite
para dançar
 
respire
no the end
tudo o que eu digo é
lamento
não há como chover mais
neste dia embriagado
 
de solidão
sigo atropelável
pedindo suco de laranja
às lágrimas
pro vendedor de guarda-chuvas.
 
robert doisneau
 


Escrito por lorena martins às 15h12
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to be a man ray
 
deixava a madeira molhar
até tomar cores
         de mágoa, de terra
envelhecendo
como o braço da cadeira
 
kiki dançava
 
talhada à mão
imóvel.
 
man ray "noire et blanche", 1926



Escrito por lorena martins às 23h37
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leandro de paula, leandro lascado ou leandro post-scriptum descobriu-me caiocarmachianamente no bordel internético e postou-me lá no portal literal, onde é o poeta curador do mês. tamanha querideza deste guri do rio, que também descubro em meio às fagulhas e alaridos do fogo de artifício e na sonora-delícia bagatela.  

afinal "a gente não presta, mas não deixa a peteca cair". merci, chéri!



Escrito por lorena martins às 12h39
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assim como se pode amar
meu casaco é só pose
neste inverno de fotos e almas
meu chapéu tem a cor
das fugas
o sorriso que posa pro álbum
com seus dentes suados
esbarra
no colete claro
de naftalina
ao lado.
 
iberê camargo: sem título, 1986


Escrito por lorena martins às 10h08
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não me venha com as tuas boletas
a minha fantasia
é te encontrar no hospital
brigar com os enfermeiros
deitar no primeiro bar
descobrir a cidade embriagada
matar-me aos poucos
abrindo as garrafas com o vestido
negando moedas
estúpida
sozinha
com uma bic e um guardanapo
e um garçom
que me fere
me inveja
chorar.
 
9 songs, de michael winterbottom (2004)


Escrito por lorena martins às 22h45
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manhã de tijolos
 
do quarto escuto
abafada pelos cobertores
a sirene
 
rodopia
tua voz
vermelha
rouba-me as maçãs
do rosto
 
anna karina em vivre sa vie, de j-l godard (1962)
 
 


Escrito por lorena martins às 23h07
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infância

no centro dos meus olhos
o mundo girava

nesta época
as mangueiras davam flores
Tânia Mara passava
carregando seus cadernos
como se carregasse
os segredos dos homens

bem na frente de casa

o mundo girava
girava a escola
o pão mofado na merendeira
o rio preso no mapa

bem no meio da tarde

nesta época
morrer era um mistério
meu avô erguia a bengala
apontava para o horizonte
e dizia que lá
- depois do fim -
nascia livre e límpida
uma cordilheira

do meu querido amigo otávio afonso

http://ocmas.blogspot.com/

candido portinari 



Escrito por lorena martins às 18h38
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FOTO ARTE 2007 Brasília

voilà:

Entre a Nostalgia e o Cinismo, de Wang Qingsong (China), com curadoria de Josette Balsa; Panorâmicas, de Esteban Pastorino e Natureza Viva, de Sérgio Fasola (Argentina), com curadoria de Elda Harrington; Re-flexos, luz e sombras – Fotografia e Psicanálise, de Andréa Mendes (Brasil) e a Coletiva Urban Spaces (Brasil), idealizada por Ilana Bessler.

imperdíveis:

o chinês e seu cinismo superpop

esteban e seu neo-futurismo melancólico

e o seu sergio, que bebeu picasso e cézanne com arcimboldo

e eu achei uma maravilha.

tudo no

espaço cultural contemporâneo ecco

outubro/novembro em brasília. e tomara que vá para outros sítios.

 

 



Escrito por lorena martins às 23h43
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bien, inaugurando uma nova fase do blog (que em breve vai ganhar outro visual), não só postarei os meus poemas, mas também outras cousas. começo com um poema que amo  

ÁGUA PERRIER

Não quero mudar você
nem mostrar novos mundos
pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês.

Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.

Só proponho
alimentar seu tédio.
Para tanto, exponho
a minha admiração.
Você em troca cede o
seu olhar sem sonhos
à minha contemplação:

Adoro, sei lá por que,
esse olhar
meio escudo
que em vez de meu álcool forte pede água Perrier.

antonio cicero



Escrito por lorena martins às 00h13
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encontrei uma pousada com janela no teto.
disseram-me as moças
que de lá podemos ver várias lunas,
daquelas que só existem na argentina.
 
a primeira noite de tranqüilidade, de valerio zurlini (1972)


Escrito por lorena martins às 21h37
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(noturno, soturno, saturno, o torpedo:)

há alguém que não dorme. sonha, apenas.
musica pequenos ruídos. sorri para o silêncio
um sorriso na escuridão.
há alguém que penumbra de amor.
 
 

 



Escrito por lorena martins às 00h01
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não que meus pés
não estivessem
escondidos no sofá
amarelo
queimado
 
minha cabeça
é mais um foco de incêndio
atravessando a asa norte
vazia
11%
 
os passantes correm de calor
e de atraso eu tropeço
arranco pedaços da pele seca
 
e sangro
 
não que os ventos
não soprem mais
no meu ouvido
 
não que eu não minta
estou com gripe
para adorar amargar
na minha cama
 
mas a chuva
só em outubro
quando alguém que não houve
me ouvir
 
no olhar.
 
o céu de suely, de karim aïnouz (2006)


Escrito por lorena martins às 23h22
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